sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

A vida é breve

Isto todo mundo sabe, a questão é como internalizar esta realidade no dia a dia para valorizar a cada instante, a cada ato vivido individualmente ou em relação a tudo e todos que nos cercam.

Quando vejo um passarinho a cantar ou à busca de alimento, me pergunto quanto tempo ele já tem vivido?! Ele não tem as neuras que o ser humano tem de preocupar-se como o tempo que lhe resta?!

Tanto nos salmos como no Novo Testamento se encontra textos em que fala do se deixar tocar pela Providência Divina. Basta lembrar a passagem em que Jesus diz “não vos preocupeis com a vossa vida quanto ao que haveis de comer, nem como o vosso corpo quanto ao que haveis de vestir. Olhai as aves do céu: não semeiam, nem colhem, nem ajuntam em celeiros. E, no entanto, vosso Pai celeste as alimenta” (Mt 6,25-26). Ou o salmista no Salmo 127,1-2: “Se o Senhor não constrói a casa, em vão labutam os construtores; (...) É inútil que madrugueis, e que atraseis o vosso deitar para comer o pão com duros trabalhos: ao seu amado ele o dá enquanto dorme!”

Certa vez ao ler um livro do Darcy Ribeiro, antropólogo que conviveu e estudou o comportamento de muitas tribos indígenas relatou a carta de um dos índios que questionava porque os brancos extraíam da terra mais do que o necessário para sua sobrevivência, porque acumular se a própria mãe natureza dá aos seus filhos?!

A relação dos índios com a natureza é de uma grandeza, de um respeito profundo.

O intrigante é que quando o ser humano moderno escutar dizer que a vida é breve lhe causa um impacto adverso dos pássaros e dos índios, tenta extrair o máximo possível, mas com a característica do exagero, da extravagância, da destruição e assim, causa mal até a si próprio.

O coração do padre pode cair neste emaranhado de achar porque a sua vida é breve, a sua vitalidade é curta, tendo uma visão da utilidade que o mundo prega – você é útil enquanto produz! – ele cai na tentação de ficar muito superficial no seu fazer as coisas. Como também pode esquecer que é um ser humano como sentimentos, preso ao tempo e espaço e, acaba estourado no físico, psíquico e espiritualmente – um padre quebrado como caniço levado a zuir sem fazer o efeito preciso.

A dinâmica do padre é diferente daquela causada ao ser humano moderno quando escuta que a vida é breve. O seu coração repousa no Senhor e sua confiança está naquele que o alimenta, o próprio Deus (cf. Sl 23; 2 Cor 5,15).

A tentação é que muitas das vezes quando se está à frente de uma ação evangelizadora se quer o efeito imediato, como se fosse uma obra realizada tecnicamente e, na real o papel principal é preparar o terreno para que o Espírito do Altíssimo tenha um campo bom para fecundar os seus dons. Talvez para dizer que foi no seu tempo que tal obra se realizou, como se isto contasse aos olhos de Deus. Na realidade é uma visão do mundo ainda impregnada no sacerdote. Aqui exige um desprendimento nas mãos de Deus. Lembra o Evangelista Marcos “Acontece como Reino de Deus o mesmo que com o homem que lançou a semente na terra: ele dorme e acorda, de noite e de dia, mas a semente germina e cresce, sem que ele saiba como”(Mc 4,26-27).

O padre é chamado a viver a brevidade com serenidade de um passarinho que canta e louva ao Criador por que está ali, todo para o momento presente, no movimento natural da vida presente na natureza. E, quando chega o fim do dia, ao deitar não deverá se perguntar quantas missas celebradas, quantos sacramentos realizados, quantas entrevistas ou atendimentos feitos e outras tantas coisas que seu ofício lhe exige; porém, ao deitar pode oferecer mais um dia vivido sob a graça de Deus na tentativa de ser uma pequena presença do Cristo junto às pessoas e à própria natureza que o circunda – “Aquele que permanece em mim e eu nele produz muito fruto; porque, sem mim, nada podes fazer” (Jo 15,5).


Nenhum comentário:

Postar um comentário