“Como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros” (Jo 13,34b).
O pedido de Jesus Cristo a nós seus seguidores é exigente e desafiador.
Viver catequética e mistagogicamente a Semana Santa é propor-se a contemplar uma realidade que ultrapassa a compreensão humana. No entanto, viver o mistério da Cruz se faz necessário para poder se impulsionar no legado de ser testemunha viva do compromisso de encarnar o Evangelho nos dias de hoje.
O amor da gratuidade, da generosidade é um amor exigente, mas possível de se viver. Como disse o Mestre, quem quiser ser discípulo renuncie a si mesmo e tome a Cruz todo o dia (cf. Mt 16,24).
Diria que o mundo de hoje está cada vez mais carente deste amor gratuito, generoso nas relações humanas. Esta entrega de alma aberta de dinamizar a vida sem esperar nada em troca é uma realidade cada vez mais intrigante diante do mundo que apresenta um discurso das facilidades, da prosperidade, da realização imediatista. A ilusão de se ter um ganho em relação a tudo que se faça perpassa até as relações mais simples do cotidiano, como dentro da família.
Hoje muitos pais para conseguirem que seus filhos se comprometam em realizar tarefas simples para o bem viver de todos e para o seu próprio bem, apelam para pagamento de mesadas, de negociações de bens que os filhos almejam ter. Hoje a relação de amizade é na base do que pode o outro me oferecer em troca, qual o credito que terei em servir à pessoa que pede algo e, quando até diz ser confidente, todavia usa do seu conhecimento do foro intimo daquele que lhe confiou algo de si e num determinado momento busca tirar proveito.
O se deixar morrer para o outro e pelo outro é uma constante prova de fogo.
Casais que diante do sofrimento de uma das partes, fica pelo caminho. Famílias por falta de um relacionamento aberto e sincero, se parte pelo caminho. Amizades que pareciam ser duradouras, mas por uma das partes se decepcionarem, não consegue ver o quão poderiam crescer a partir do perdão e, simplesmente se apartam. E, assim tantas outras relações humanas não conseguem encontrar no Crucificado a motivação da doação no mais profundo do significado de viver o amor.
Sabe-se que os Apóstolos também tiveram suas decepções. Suas ilusões caíram por terra (cf. Mt 16,23; Jo 14,8-9). Todavia é bem verdade que conseguiram dar um passo a mais, não ficaram pelo meio do caminho e, sim prosseguiram e viram o CRUCIFICADO-RESSUSCITADO.
A Semana Santa e de modo o Tríduo Pascal quer lançar a cada cristão e pessoa de boa vontade a se abrir a este chamado de ir além das aparências, ir além do que o mundo apresenta, de ir além do que se pode explicar. Deus espera que o ser humano se lance no mistério da Cruz porque sabe que ao seguir os passos do Mestre encontrará a felicidade plena, pois Ele próprio é o Caminho, a Verdade e a Vida (cf. 14,6).
E, ao seguir os passos do Mestre perceberá a transfiguração que acontece envolvido na graça de Deus junto aos semelhantes que fazem acontecer à realidade do cotidiano. Sempre tendo presente que o mistério do morrer e ressuscitar acontece constantemente desde o levantar ao deitar.
“Porque se nos tornamos uma coisa só com ele por morte semelhante à sua, seremos uma coisa só com ele também por ressurreição semelhante à sua, sabendo que nosso velho homem foi crucificado com ele para que fosse destruído este corpo do pecado, e assim não sirvamos mais ao pecado. Com efeito, quem morreu, ficou livre do pecado” (Rm 6,5-7).
