quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Quaresma e Campanha da Fraternidade

A Igreja nestes quarentas dias quer propor aos fiéis dias de reflexão e oração.
Este impor as cinzas é um convite ao voltar às origens – “Pois tu és pó e ao pó tornarás.” (Gn 3,19b) Ou seja, o ser humano perceber sua finitude aqui na terra; perceber que tudo é fugaz.
E neste conscientizar-se que tudo é passageiro o Criador convida este mesmo ser humano a abrir-se para o infinito; para o eterno – “assim como pela falta de um só resultou a condenação de todos os homens, do mesmo modo, da obra da justiça de um só, resultou para todos os homens a justificação que traz a vida.” (Rm 5,18)
Este tempo forte de graça que cada fiel é chamado a viver sempre renova o desejo ardente de querer vivenciar a vida que brota do espírito filial em Cristo Jesus. “Mas se morremos com Cristo, temos fé que também viveremos com ele, sabendo que Cristo, uma vez ressuscitado dentre os mortos, já não morre, a morte não tem mais domínio sobre ele.” (Rm 6,8-9)
Assim, neste espírito de recolhimento e num estado de penitente o fiel se propõe a caminhar com Jesus e aprender ou reencontrar o sentido profundo da vida que o chama a ser testemunha viva do amor misericordioso de Deus.
E, para ajudar na reflexão e atualizar o Evangelho numa perspectiva comunitária, para fugir do individualismo e intimismo a CNBB apresenta a todos os homens e mulheres de boa vontade a Campanha da Fraternidade que neste ano tem como tema – Fraternidade e Saúde Pública e, como lema – “Que a saúde se difunda sobre a terra.” (Eclo, 38,8)
E, como escreveu Dom Leonardo U. Steiner, Secretário Geral da CNBB, “A Igreja, nessa quaresma, à luz da Palavra de Deus, deseja iluminar a dura realidade da Saúde Pública e levar os discípulos-missionários a serem consolo na doença, na dor, no sofrimento e na morte. E, ao mesmo tempo, exigir que os pobres tenham um atendimento digno em relação à saúde. Que ela se difunda sobre a terra, pois a salvação já nos foi alcançada pelo Crucificado.” (Manual CF-2012, p. 8)
Diante deste apelo o ser humano que se depara com a pessoa de Cristo neste Tempo da Quaresma é chamado a solidarizar-se com o outro e, principalmente a partir daquelas pessoas que são desprovidas dos conhecimentos do que significa Saúde Pública.
A prática comum dos exercícios quaresmais de jejum, oração e esmola ganham um novo impulso com este chamado que a Igreja no Brasil faz a todos homens e mulheres de boa vontade.
No exercício do jejum o penitente encontra motivação no caminhar do Cristo que se doa profundamente a toda humanidade. O discípulo-missionário ao atualizar os passos do Mestre jejua para fortalecer o interior do ser e ali encontrar o impulso para praticar a “esmola”. Isto muito mais do que dar coisas (sobras que tem em casa) é convocado a solidarizar no cotidiano daqueles que não tem ninguém para auxiliá-los quando a questão é Saúde. Buscar ser o samaritano que acolhe e cuida e leva até um local em que aquele seu irmão possa ser tratado com dignidade. Com certeza, a sua oração terá mais valor diante do Deus misericórdia. Pois toda oração leva a ação e toda oração descolada da ação/transformação não é oração em Deus.
“Estende tua mão ao pobre para que tua benção seja perfeita. Que tua generosidade atinja todos os viventes, mesmo aos mortos não recuses a tua piedade. Não fujas dos que choram, aproxima-te dos que estão aflitos. Não temas visitar doentes, porque serás amado por isso. Em tudo, o que fazes, lembra-te de teu fim e jamais pecarás.” (Eclo 7,32-36)

Quaresma tempo forte da graça de Deus àqueles se abrem à ação divina em suas vidas.
Quaresma tempo de reflexão a partir da Palavra de Deus que orienta os corações.
Quaresma tempo de esperança naquele que se apresenta como o Salvador.
Quaresma tempo propício para reelaborar o projeto de vida.

Deus quer e você se dispõe?

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Oi Vovô


Dias atrás, estava a observar o pôr-do-sol na praia do Jacaré, em Paraíba e, naquele instante divino da presença silenciosa de Deus, veio à minha memória a sua pessoa.
Lembrei-me do homem simples que eras, mas atualizado. Lembrei-me do homem agitado que eras, mas curioso. Lembrei-me do homem que tinha tempo e gostava de saber o que tinha de novo para contar das andanças da vida.
Por isto, hoje quero acordar suas lembranças em minha memória e pedir a sua companhia para juntos descrevermos as maravilhas que a vida nos dá todos os dias, seja numa viagem com a que fiz a Natal, em Rio Grande do Norte, seja no corriqueiro do cotidiano por onde se transpira a vida. E, assim eu e você podemos levar outras pessoas a cultivar o relacionamento tão sadio e significativo entre avôs e netos; entre dois seres que se amam desinteressados, porque estão abertos uma para o outro numa troca de experiências de quem já viveu muito e daquele que começa a viver.
Vou supor Vovô que aceites o convite deste teu neto e, darás a alegria da companhia nestas próximas páginas.
Com todo respeito Vovô vou tentar descrever-te para aqueles que não te conheceram pessoalmente e, assim possam ter uma noção de como eras fisicamente e teus traços de personalidade. Sei que não conseguirei descrever-te por inteiro. Contudo, é uma forma de trazer à forma visível aquilo que tenho na memória do meu ser.
Já conheci o Vovô numa certa idade, pois a minha mãe é a filha mais velha. Ele só tinha duas filhas. Vovô tinha o físico forte de um homem do campo, pele meio “jumbo”, pois ele sendo descendente de luso-portugueses misturado com índio (seus ancestrais por parte da bisavó, sua mamãe). Homem que trabalho em diversos serviços, mas sabia fazer muito bem uma farinha de mandioca e, como ficava alegre em poder ter farinha para o ano todo e para os seus familiares. Homem de uma estatura mediana. Tinha passos firmes, mãos seguras, pois sempre lidou com ferramentas e isto lhe dava certa destreza e agilidade. Rosto sereno e ao mesmo tempo alegre quando se deparava com alguém que lhe era caro. Usava óculos e tinha cabelos grisalhos. Às vezes franzia a testa e voz forte quando lhe incomodava ou algo tinha tirado do sério. Gostava de brincar com seus netos e dizem que gostava de fazer arte com seus conhecidos quando novo. Adorava inventar brinquedos para os seus netos (carrinho de corda, flauta de bambu) como também reaproveitava coisas velhas para fazer novas (a maquina de lavar que virou descascador de mandioca, a serra elétrica que também impulsionava a garapeira). Homem criativo se poderia dizer. Tinha uma personalidade forte, pois nas suas conversas deixavam em evidências seus pensamentos, suas opiniões, quer ver se o assunto fosse política da região. Eta! Ai a conversa pegava às vezes certos ares de nervo à pele. Mas era um homem justo e certo nas suas coisas e com seus semelhantes. Não gostava de brincadeira quando assunto era trabalho e quando estava numa roda de jogo de dominó. Mas tinha todo tempo do mundo quando se dedicava a estar com os netos ou fazer algo para sua família, como fabricar com suas próprias mãos escada de madeira para ser usada pelos seus para trocar uma lâmpada ou coisa do gênero. Um homem que gostava muito de assistir TV desde programas de Telejornais, Missa, como também programas humorísticos e novelas. Aos fins de semanas ia sempre à Missa, capela São Pedro que ficava ao lado de sua casa.
Bem esta o Vovô que tenho presente na memória e que compartilho com você e certamente no decorrer dos contos, surgirão outras facetas deste Vovô que vai comigo levar você a partilhar de algumas passagens marcantes que valem a pena serem partilhadas.
Vovô gostou de como te descrevi às pessoas?
Sim, meu neto – respondeu Vovô – mas não esqueça porque amas este velho, né! 

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O saber escutar

Como é grande o desafio nos dias de hoje esta questão – o saber escutar.
Ao olhar a própria anatomia humana se percebe que se têm dois ouvidos e uma boca. No entanto, se tirar um tempo e ficar a observar as pessoas nas suas relações, nos seus encontros se observam que o ser humano tem uma grande necessidade de se comunicar e fala demasiadamente, muitas vezes, sem parar para a outra pessoa, nem lhe dando espaço para devolver o que escuta.
Também o não saber escutar pode atravancar muitos projetos.
Existem pessoas que estão fechadas para escutar o outro quando este quer lhe apresentar alguma idéia, algum projeto, algo que quer partilhar com o seu semelhante. Todavia, este semelhante não está ali para escutar, de saber o que o seu semelhante tem a lhe dizer. E, mesmo que não demonstre imediatamente, mas depois de um tempo aquele que estava ali falando percebe que está sozinho no falar.
Há várias maneiras com certeza de demonstrar o como saber escutar.
Há também uma necessidade de verificar se os sentidos que um dos interlocutores usa se afina com o sentido do outro que interage. Caso contrário, haverá uma dissonância.
Numa casa de família em que há cinco pessoas, por exemplo, um sendo o pai, outro a mãe e os outros três os filhos e estes de idades diferentes e ainda um deles de sexo oposto dos outros. Tudo isto exige uma contínua escola do aprender de como saber escutar.
Quando uma pessoa se dá o direito de parar uns minutos diante do mar e escutar o som do mar em movimento e a quebra das ondas nas encostas das pedras. Quando uma pessoa se dá o direito de parar alguns instantes diante da mata ou de árvores e abrir seus sentidos para escutar as folhas que balançam de acordo com o vento que as movimenta. Escutar os pássaros ali por perto destas árvores que servem de aconchego. Entenderá o que significa “o saber escutar”.
Quando uma pessoa se dá o direito, mesmo dentro da grande cidade, nos vais e vens dos veículos, das pessoas que circulam, dos ruídos dos prédios em construção, dos mais variados sons que ecoam de perto e de longe poderá treinar seus sentidos para escutar o que necessita ser escutado – o ser humano.
Impressionante quando uma mãe de primeira viagem tende a escutar o coração de seu filho recém-nascido. É impressionante quando um jovem que compra seu primeiro carro quer escutar o roncar do motor do seu carro. Impressionante quando alguém ganha um bicho de estimação e quer escutar o som que o mesmo vai fazer quando vê o “dono”.
Será que o ser humano se impressiona com seu próprio som? Será que se impressiona com o som que vem do outro semelhante a si?
Usar de todos os sentidos, de estar todo inteiro para o outro na tentativa de escutá-lo sem reservas, sem pré-conceito, sem neuras... Como fazer?
Deus nos ensina no seu silêncio.
A porta de entrada para esta escola é colar-se a escutar a Deus no seu silêncio.
Para o cristão é se deparar com a escuta da Palavra Divina. Lendo-a e ao mesmo tempo dar tempo para ecoar dentro de si. Para o cristão é se deparar com o mistério da Eucaristia, o Deus que está ali e num encontro do EU e TU se dá a relação da escuta.
A amizade verdadeira não precisa de muitas palavras, basta um estar ali e escutar através da vida presente à sua frente, na sua forma de se manifestar. O eco ressoa e ambos escutam.
O saber escutar é um transpirar da vida que se faz presente no ato presente.