quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A coroa do Advento

Um dia destes um jovem me fez um comentário: “Padre, havia um pároco que quando chega o Tempo do Advento colocava a coroa pendurada e ficava estranho!” Hoje ao entrar na capela do Mosteiro Trapista, durante um momento após a oração das Vésperas, enquanto tentava orar ao olhar para o lado vi a Coroa do Advento pendurada e lembrei o que o jovem rapaz tinha me dito dias atrás.

E, me fez relembrar a figura daquele tal pároco que tinha este costume de pendurar a Coroa no presbitério na Igreja Matriz. Este padre hoje não exerce mais sua função como presbítero da Igreja e então voltei meus pensamentos à vida sacerdotal – o que significa ser padre da Igreja de Cristo? Por que Ele escolhe determinado jovem para si? E, porque alguns no percurso perdem o encanto em servir a Cristo no ministério sacerdotal?

Fez-me lembrar o título do livro que tento escrever – “O coração de um sacerdote” – e, cada vez que me deparo com este título me pergunto o que escrever como começar ou o que colocar ali no papel. O que o Senhor quer que seja escrito?! Que sentido dar, entonação? Enfim, tantas indagações.

E estou aqui novamente a digitar...

Estes dias dizia para uma família amiga e estavam presentes também dois seminaristas de filosofia que fazem estágio pastoral onde sou pároco: Penso às vezes em escrever um livro mostrar que ao mesmo tempo é um mistério assumir o ministério sacerdotal e, tão grandioso, tão comprometedor, tão desafiador; todavia, tentar passar para as pessoas e, principalmente, para os jovens que a gente na fragilidade, nas pequenas, nos obstáculos algo inexplicável – a presença divina do Mestre, o Espírito Santo que se manifesta. E, é tão dignificante que ao mesmo tempo em que estou no mundo, faço parte do mundo, vivo as angústias e alegrias dos que me cercam, porém tens “algo a mais”. E, este “algo a mais” não no sentido de poder, de status, mas sim no sentido de que algo me fortalece algo envolve para testemunhar que é possível ser diferente ou apresentar algo de diferente para as pessoas.

A Coroa do Advento remonta a idéia de um tempo que se aproxima e, existe um ponto de partida e de chegada. E, nesta chegada se vive a maravilhosa alegria do Deus que se revela aos seus no gesto de tornar-se um com todos, exceto no pecado.

Talvez se pudesse dizer que um jovem também ao preparar-se para o sacerdócio sabe o ponto de partida e o ponto de chegada, no sentido da caminhada para assumir em Cristo o sacerdócio ministerial, com objetivo de se deixar consumir até os fins dos tempos na perspectiva de ser uma centelha de luz no mundo e clarear aos semelhantes para conhecer a verdadeira Luz – Jesus Cristo.

O pároco que o jovem relembrava tinha um dinamismo junto ao povo e, talvez usava a criatividade de pendurar a Coroa do Advento para tentar evidenciar o que a própria vem anunciar, tanto no relato da primeira como da segunda espera do Messias. Porque se a Coroa do Advento estivesse fixa ao chão como é costume se ver nas Comunidades tem um sentido diferente do estar suspensa no ar.

O estar suspensa no ar, poderia aquele pároco querer dizer ao povo que é Deus que vem e invade a criação; o Altíssimo tornou-se um das criaturas; “Ele de condição divina esvaziou-se e tornou-se um de nós” (cf. Fl 2, 6-11). A Luz invadiu as trevas; o nada foi preenchido pelo tudo de Deus; O Espírito encarnou-se (cf. Jo 1,14ss).

Assim, se pode chegar a dedução de que ao olhar para a Coroa do Advento, todo cristão sabe que há um ponto de partida e um ponto de chegada e, neste processo a Palavra Divina afirma que Deus quer invadir a humanidade no centro em cheio com seu esplendor e, no entanto, está luz só pode ser acolhida se o espaço do coração humano estiver livre, sem obstáculos, sem a tentação de querer fixá-lo e, sim deixar o Espírito mover de acordo com sua vontade.

Ao olhar para a Coroa do Advento suspensa no ar pode suscitar a sensação de ausência, mas na real ali está o pleno. Pois, o Espírito só age quando o ser humano está livre das amarras, das armadilhas que a matéria o seduz. O Espírito só age quando o ser humano se deixa mover sem medo de viver na liberdade de Deus como quem se lança no vazio na certeza de que lá vai encontrar a mão sustentadora de Deus.

Não sei dizer qual motivação real que aquele pároco teve para colocar a Coroa do Advento suspensa, como também não sei a real motivação que fez o mesmo padre deixar de exercer na plenitude o sacerdócio ministerial junto aos seus. Mas talvez eu saiba o quanto tenho que me trabalhar para não me prender em mim mesmo e assim ficar parado entre o ponto de partida e ponto de chegada; entre o ter me lançado em Cristo e às vezes ficar fixo em projetos pessoais; o de achar que já cheguei e na realidade tenho muito ainda que caminhar para chegar ao ponto de chegada – a santidade em Deus.

O caminhar com o padre

A dificuldade de falar ou de relatar como é o coração de um padre, porque fico a imaginar quem vai ler os escritos, qual a busca que o leitor/a tem; como também, como colocar em palavras ou o que expor que seja de significância, de importante a ser revelado, sem trocar o significante pelo que pode ser relativo. Todavia, também aqui surge outra questão, pois como o ser humano é variado nas suas buscas, a partir de cada pessoa que vem de realidades das mais diversas e com isto tem as mais diferenciadas buscas, poderia afirmar o que para um seria relativo para outros tantos seria importante e vice-versa.

Diante disto me veio o pensamento de que poderia convidar a cada leitor/a, isto é, você que lê estas linhas neste exato momento a começar comigo um caminho.

Há alguns anos atrás li num jornal local a experiência de que crianças da escola pública municipal participavam de um concurso e, algumas delas que ganhassem o referido concurso teriam como prêmio o acompanhar de um dia do Prefeito daquela cidade. Isto é, ficaria com o Prefeito e com o mesmo seguiria toda a agenda de um dia. Experiência interessante para a criança e ao mesmo tempo uma aproximação da autoridade junto àqueles que o elegeram. Também interessante, porque sendo a criança um ser em crescimento, o Prefeito teria ter ciência que estava ali sendo uma referência para aquela criança no sentido de ter caráter, de ter um perfil que instigasse a criança a perceber a dignidade de exercer o encaro de governar um município com transparência, honestidade, retidão, humildade, firmeza e tantas outras características necessárias a um governante. O Prefeito ao se expor para aquela criança exigia de si mesmo um autoconhecimento, uma autocompreensão dos seus atos e do que isto intervém nas vidas das pessoas, de modo bem próximo, como daquela criança “o pequenino cidadão”.

Então, convido você leitor/a caminhar comigo e juntos construirmos o livro “O coração de um padre”. Pois acredito que assim ambos cresceremos e aprenderemos o significado do significante “coração sacerdotal”.

Sei que é desafiador, pois estou propondo-me a partilhar com você as angústias e alegrias, os desafios e as conquistas, os sonhos e esperanças a partir da dinâmica do cotidiano, no encarnar a “teoria” à prática. Coloco “teoria” entre aspas, pois o ministério sacerdotal não é apenas uma “teoria” construída por um filósofo ou teólogo, mas é transmitida do Evangelho aos seus discípulos, é um ministério presente deste os primórdios do Cristianismo e tem uma vasta riqueza através dos séculos de exemplo de Santos Padres junto ao pastoreio do Povo Santo de Deus.

Também quero dizer que dentro deste desafio temos limitações, pois existem certos sentimentos ou comportamentos que nunca conseguirei transcorrer com exatidão, pois desde que passe da “real” realidade para o “simbólico” da escrita, se perde a vitalidade que só se vive enquanto tal. É o “misterium” que ultrapassa a todos os sentidos. E, como também cada leitor/a tem seu “’óculos” de leitura; isto é, cada um traz em si, elementos que estão impregnados em si e que de alguma forma interferem positiva ou negativamente no envolver-se da leitura de quaisquer textos.

Mas mesmo ao saber deste desafio e de outros que se contrapõe, convido a seguir em frente. Jamais desanimar de caminhar com este servo do Senhor, que se propõe a partilhar com singeleza da vida sacerdotal sem o intuito, de se colocar como exemplo e muito mesmo com intuito de ser referencial, apenas o desejo de tentar mostrar aos jovens, de modo especial, aqueles que se sentem chamados à vida consagrada no ministério sacerdotal, que ao mesmo tempo tudo parece ser um mistério divino, mas é possível vivê-lo no cotidiano, na graça de Deus, se dando o direito de errar e acertar, na certeza de seguir os passos do Mestre que se coloca à frente – o Sumo e Eterno Sacerdote.

Caro leitor/a vamos construir um pouco nosso itinerário para não nos perdermos pelo caminho. Até porque conto com sua colaboração e participação. Você poderá também intervir com suas colocações, observações e questionamentos. E, dentro da possibilidade que o Espírito do Senhor me conceder, tentarei apontar a direção para as questões que se apresentarem pelo caminho.

No seminário, enquanto se está no processo de formação/educação daquilo que se faz necessário para o candidato ao sacerdócio, uma das propostas é que o mesmo desenvolva seu projeto pessoal de vida. Talvez esteja aqui o ponto de partida para o itinerário que eu e você vamos caminhar.

Um horário ou cronograma é bom ter, pelo menos um esqueleto geral, para uma direção, senão corresse o risco de passar o dia só “apagando fogo”, ou seja, resolver questões corriqueiras e não progredir. Ah! Isto me fez agora perceber que preciso contextualizar o leitor/a de que encargo este padre exerce além de ser sacerdote da Igreja de Cristo.

Atualmente sou pároco de uma paróquia não muito grande e nem muito pequena, tem dez comunidades pertencentes à referida paróquia e, no futuro deverá ter mais uma em vista diante do crescente de pessoas num determinado bairro do município. Tem o município uma média de doze mil munícipes. E, além da Igreja Católica, sendo ainda a comunidade mais expressiva, a segunda é a Assembléia de Deus e depois outras denominações religiosas de cunho evangélico. A constituição do Povo de Deus provém de etnias italianas, alemãs, luso-portuguesa, pouquíssimos afro-descendentes.

Diria que no nosso cronograma seria interessante se firmar um horário para você interagir com o que deixo escrito aqui.

Para mim, fica melhor partilhar o texto do dia após 22horas, quando geralmente já estou dentro de casa. Então aconselho a você se interar do dia que transcorreu no dia seguinte. Assim, terá uma melhor sistematização e acompanhamento do desenrolar dos escritos.

Proponho colocar sempre este texto no blog particular – marctelltj.blogspot.com com aviso no faceebock. O email particular é marctelltj@hotmail.com onde você poderá escrever suas observações, dúvidas ou colocações sem receio, pois não exporei ninguém e, quando achar pertinente colocarei o assunto em pauta para partilhar com outros leitores/as que talvez tivessem a mesma percepção, mas por algum motivo não se manifestaram e, no entanto, podem se sentir acolhido quando responder a tais e-mails.

Creio que de início esta de bom tamanho as orientações do nosso cronograma geral. E, você já poderá fazer presente sua primeira participação e enviar e-mail e dar seu parecer.

Que Deus nos dê no seu Espírito discernimento e aptidão para que este desejo que a tempo brotou no coração deste padre, seja realmente da vontade divina, pois posso partilhar que há muito tempo esta inquietação me invade o coração e, no verão passado ao caminhar pela praia num fim de tarde, suscitou o nome do livro – “O coração de um padre”. E, de lá para cá cada vez mais esta inquietação me provoca a necessidade de iniciar. E, talvez junto com o desabrochar do Advento do Natal do Senhor neste novo ano litúrgico que se inicia justamente o Ano B que traz a figura do Evangelista Marcos que retrata sobre Jesus no processo do Caminho chegou a hora de começar o desenrolar do caminhar com o “coração de um sacerdote”.

Maria, nossa mãe esteja como nossa advogada e orientadora.

Ainda quero invocar a São João Maria Vianney, São Francisco de Assis e São Bento.

Amém.





































sábado, 26 de novembro de 2011

Advento, novos ares se aproximam


Um novo ano litúrgico se inicia com este primeiro domingo do Tempo do Advento.


E a Igreja propõe a cada ciclo litúrgico o encontro do discípulo com aquele que é o Senhor, “Aquele Que É” abre sua tenda no meio do seu povo (cf. CNBB, DGAE, n. 37).


A Palavra de Deus já de imediato na liturgia da Missa deste Domingo do Senhor pede aos fiéis a VIGILÂNCIA. E, faz ressaltar que este Espírito Vigilante só o tem quem se deixa tocar pela revelação da Sagrada Palavra que não ilude, mas é clara e precisa nas suas orientações.


Neste sentido o Advento, este tempo de Espera é propício para abrir todos os sentidos na busca de a Palavra de Deus permear todo o ser e ao chegar ao âmago para ali se enraizar e fazer sua morada.


Muitas pessoas nestes próximos dias fazem reformas nas suas casas, desde aqueles que constroem sua primeira casa própria, como aqueles que dão um novo toque, uma nova pintura, aquisição de novos bens e por ai em diante. Muitas pessoas começam a passar pelo comércio e observar as luzes, os presépios, os mais diferenciados pinheiros, os variados utensílios que podem virar presente para alguém – amigos, parentes, filhos, pais, namorado. Muitas pessoas percebem pelo agito das rodovias que chega o fim do ano, pois os fluxos de veículos em determinadas direções como as praias, shoppings, centros históricos das cidades iluminadas, recebem uma maior quantidade de visitantes. Muitas pessoas sabem que algo muda, porque a natureza dá sinais através do cantar dos pássaros, das cigarras a cantar, do calor mais rigoroso, da lua mais brilhosa.


Enfim, existem diversas formas de se perceber um novo ar que se aproxima.


Os cristãos também vivenciam este ar de que algo se anuncia, de que algo se aproxima ao participar das Celebrações Dominicais. Em cada comunidade se acolhe as Velas do Advento e a cada uma acesa se diz que o grande dia se achega para ser vivido com alegria, com ternura, com gratidão, pois é o grande acontecimento da revelação divina que se vive – o Mistério da Encarnação, o nascimento do Deus-Menino.


Que você e eu não deixemos de sentir estes novos ares que se aproximam.


Que o agito do dia a dia não tire de nós cristãos a centralidade do Tempo do Advento – o da Espera, o da Esperança de viver envolvido por este Deus que quer caminhar com os seus e ensinar o caminho da Vida e da Esperança.


Que o mundo não se deixe iludir por uma festividade externa e vazia só de banquetes e troca de presentes, todavia se deixe surpreender pela manifestação daquele que deseja ardente estar conosco todos os dias até os fins dos tempos – o Emanuel, o Deus conosco.


É Tempo do Advento.


É tempo de espera e vigilância.


Que a Palavra de Deus seja a fonte para viver este grande mistério de amor e de gratuidade. Que a Palavra de Deus seja o alimento para nos deixar como sentinelas vigilantes e glorificar por estar acordados diante daquele que se anuncia como o Salvador.


Estes ares se aproximam.


Aproxime-se daquele que é a brisa divina – Cristo Jesus.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Finados


Data que marca e mexe com muita gente.
Data que para outros não passa de um mero feriado.
Data que para tantos outros não deixa de ser mais um dia como qualquer.
Data que expressa um momento de reflexão para quem reflete sobre a vida.
Data que exprime um sentimento de perca para quem ama e partilha o viver.
Data que significa fé na vida eterna.
Fato é que cada ser humano se relaciona com esta data a partir do seu ponto de vista, a partir de sua forma de encarar a vida.
Finados é uma data em que as pessoas vão aos cemitérios colocar flores, acender velas, ficar em silêncio diante do jazido da pessoa que já partiu.
Finados é uma data em que as pessoas encontram nos cemitérios não só os locais onde estão as pessoas que já partiram, mas reencontram amigos que em algum momento partilharam o viver, reencontram parentes e familiares que se distanciaram por motivos diversos e, assim acabam às vezes a se encontrar neste percurso.
Talvez e, com certeza existam pessoas que não vão ao cemitério e nem a Igrejas orar pelos que já partiram.
Talvez e, com certeza existam pessoas que neste dia prefiram o barulho, o movimento dos shoppings para não deixar o seu interior falar e levar a uma reflexão da sua transitoriedade, da sua fragilidade.
Todavia, indiretamente também perceberá que tudo é passageiro nesta vida.
Basta olhar os modismos que os shoppings apresentam.
Basta perceber a si mesmo que antes tinha tal idade e agora já está noutra fase da vida.
Pode não querer parar para refletir sobre o que é viver, como viver, no que acreditar...
Contudo, o próprio viver de alguma forma lhe jogará para esta reflexão que o dia de Finados propõe a todo ser humano.