Um dia destes um jovem me fez um comentário: “Padre, havia um pároco que quando chega o Tempo do Advento colocava a coroa pendurada e ficava estranho!” Hoje ao entrar na capela do Mosteiro Trapista, durante um momento após a oração das Vésperas, enquanto tentava orar ao olhar para o lado vi a Coroa do Advento pendurada e lembrei o que o jovem rapaz tinha me dito dias atrás.
E, me fez relembrar a figura daquele tal pároco que tinha este costume de pendurar a Coroa no presbitério na Igreja Matriz. Este padre hoje não exerce mais sua função como presbítero da Igreja e então voltei meus pensamentos à vida sacerdotal – o que significa ser padre da Igreja de Cristo? Por que Ele escolhe determinado jovem para si? E, porque alguns no percurso perdem o encanto em servir a Cristo no ministério sacerdotal?
Fez-me lembrar o título do livro que tento escrever – “O coração de um sacerdote” – e, cada vez que me deparo com este título me pergunto o que escrever como começar ou o que colocar ali no papel. O que o Senhor quer que seja escrito?! Que sentido dar, entonação? Enfim, tantas indagações.
E estou aqui novamente a digitar...
Estes dias dizia para uma família amiga e estavam presentes também dois seminaristas de filosofia que fazem estágio pastoral onde sou pároco: Penso às vezes em escrever um livro mostrar que ao mesmo tempo é um mistério assumir o ministério sacerdotal e, tão grandioso, tão comprometedor, tão desafiador; todavia, tentar passar para as pessoas e, principalmente, para os jovens que a gente na fragilidade, nas pequenas, nos obstáculos algo inexplicável – a presença divina do Mestre, o Espírito Santo que se manifesta. E, é tão dignificante que ao mesmo tempo em que estou no mundo, faço parte do mundo, vivo as angústias e alegrias dos que me cercam, porém tens “algo a mais”. E, este “algo a mais” não no sentido de poder, de status, mas sim no sentido de que algo me fortalece algo envolve para testemunhar que é possível ser diferente ou apresentar algo de diferente para as pessoas.
A Coroa do Advento remonta a idéia de um tempo que se aproxima e, existe um ponto de partida e de chegada. E, nesta chegada se vive a maravilhosa alegria do Deus que se revela aos seus no gesto de tornar-se um com todos, exceto no pecado.
Talvez se pudesse dizer que um jovem também ao preparar-se para o sacerdócio sabe o ponto de partida e o ponto de chegada, no sentido da caminhada para assumir em Cristo o sacerdócio ministerial, com objetivo de se deixar consumir até os fins dos tempos na perspectiva de ser uma centelha de luz no mundo e clarear aos semelhantes para conhecer a verdadeira Luz – Jesus Cristo.
O pároco que o jovem relembrava tinha um dinamismo junto ao povo e, talvez usava a criatividade de pendurar a Coroa do Advento para tentar evidenciar o que a própria vem anunciar, tanto no relato da primeira como da segunda espera do Messias. Porque se a Coroa do Advento estivesse fixa ao chão como é costume se ver nas Comunidades tem um sentido diferente do estar suspensa no ar.
O estar suspensa no ar, poderia aquele pároco querer dizer ao povo que é Deus que vem e invade a criação; o Altíssimo tornou-se um das criaturas; “Ele de condição divina esvaziou-se e tornou-se um de nós” (cf. Fl 2, 6-11). A Luz invadiu as trevas; o nada foi preenchido pelo tudo de Deus; O Espírito encarnou-se (cf. Jo 1,14ss).
Assim, se pode chegar a dedução de que ao olhar para a Coroa do Advento, todo cristão sabe que há um ponto de partida e um ponto de chegada e, neste processo a Palavra Divina afirma que Deus quer invadir a humanidade no centro em cheio com seu esplendor e, no entanto, está luz só pode ser acolhida se o espaço do coração humano estiver livre, sem obstáculos, sem a tentação de querer fixá-lo e, sim deixar o Espírito mover de acordo com sua vontade.
Ao olhar para a Coroa do Advento suspensa no ar pode suscitar a sensação de ausência, mas na real ali está o pleno. Pois, o Espírito só age quando o ser humano está livre das amarras, das armadilhas que a matéria o seduz. O Espírito só age quando o ser humano se deixa mover sem medo de viver na liberdade de Deus como quem se lança no vazio na certeza de que lá vai encontrar a mão sustentadora de Deus.
Não sei dizer qual motivação real que aquele pároco teve para colocar a Coroa do Advento suspensa, como também não sei a real motivação que fez o mesmo padre deixar de exercer na plenitude o sacerdócio ministerial junto aos seus. Mas talvez eu saiba o quanto tenho que me trabalhar para não me prender em mim mesmo e assim ficar parado entre o ponto de partida e ponto de chegada; entre o ter me lançado em Cristo e às vezes ficar fixo em projetos pessoais; o de achar que já cheguei e na realidade tenho muito ainda que caminhar para chegar ao ponto de chegada – a santidade em Deus.




