Dias atrás, estava a observar o
pôr-do-sol na praia do Jacaré, em Paraíba e, naquele instante divino da
presença silenciosa de Deus, veio à minha memória a sua pessoa.
Lembrei-me do homem simples que
eras, mas atualizado. Lembrei-me do homem agitado que eras, mas curioso.
Lembrei-me do homem que tinha tempo e gostava de saber o que tinha de novo para
contar das andanças da vida.
Por isto, hoje quero acordar
suas lembranças em minha memória e pedir a sua companhia para juntos
descrevermos as maravilhas que a vida nos dá todos os dias, seja numa viagem
com a que fiz a Natal, em Rio Grande do Norte, seja no corriqueiro do cotidiano
por onde se transpira a vida. E, assim eu e você podemos levar outras pessoas a
cultivar o relacionamento tão sadio e significativo entre avôs e netos; entre
dois seres que se amam desinteressados, porque estão abertos uma para o outro
numa troca de experiências de quem já viveu muito e daquele que começa a viver.
Vou supor Vovô que aceites o
convite deste teu neto e, darás a alegria da companhia nestas próximas páginas.
Com todo respeito Vovô vou
tentar descrever-te para aqueles que não te conheceram pessoalmente e, assim
possam ter uma noção de como eras fisicamente e teus traços de personalidade.
Sei que não conseguirei descrever-te por inteiro. Contudo, é uma forma de
trazer à forma visível aquilo que tenho na memória do meu ser.
Já conheci o Vovô numa certa
idade, pois a minha mãe é a filha mais velha. Ele só tinha duas filhas. Vovô
tinha o físico forte de um homem do campo, pele meio “jumbo”, pois ele sendo
descendente de luso-portugueses misturado com índio (seus ancestrais por parte
da bisavó, sua mamãe). Homem que trabalho em diversos serviços, mas sabia fazer
muito bem uma farinha de mandioca e, como ficava alegre em poder ter farinha
para o ano todo e para os seus familiares. Homem de uma estatura mediana. Tinha
passos firmes, mãos seguras, pois sempre lidou com ferramentas e isto lhe dava
certa destreza e agilidade. Rosto sereno e ao mesmo tempo alegre quando se deparava
com alguém que lhe era caro. Usava óculos e tinha cabelos grisalhos. Às vezes
franzia a testa e voz forte quando lhe incomodava ou algo tinha tirado do
sério. Gostava de brincar com seus netos e dizem que gostava de fazer arte com
seus conhecidos quando novo. Adorava inventar brinquedos para os seus netos
(carrinho de corda, flauta de bambu) como também reaproveitava coisas velhas
para fazer novas (a maquina de lavar que virou descascador de mandioca, a serra
elétrica que também impulsionava a garapeira). Homem criativo se poderia dizer.
Tinha uma personalidade forte, pois nas suas conversas deixavam em evidências seus
pensamentos, suas opiniões, quer ver se o assunto fosse política da região.
Eta! Ai a conversa pegava às vezes certos ares de nervo à pele. Mas era um
homem justo e certo nas suas coisas e com seus semelhantes. Não gostava de
brincadeira quando assunto era trabalho e quando estava numa roda de jogo de
dominó. Mas tinha todo tempo do mundo quando se dedicava a estar com os netos
ou fazer algo para sua família, como fabricar com suas próprias mãos escada de
madeira para ser usada pelos seus para trocar uma lâmpada ou coisa do gênero.
Um homem que gostava muito de assistir TV desde programas de Telejornais,
Missa, como também programas humorísticos e novelas. Aos fins de semanas ia
sempre à Missa, capela São Pedro que ficava ao lado de sua casa.
Bem esta o Vovô que tenho
presente na memória e que compartilho com você e certamente no decorrer dos
contos, surgirão outras facetas deste Vovô que vai comigo levar você a
partilhar de algumas passagens marcantes que valem a pena serem partilhadas.
Vovô gostou de como te descrevi
às pessoas?
Sim, meu neto – respondeu Vovô – mas não esqueça
porque amas este velho, né!
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