quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Oi Vovô


Dias atrás, estava a observar o pôr-do-sol na praia do Jacaré, em Paraíba e, naquele instante divino da presença silenciosa de Deus, veio à minha memória a sua pessoa.
Lembrei-me do homem simples que eras, mas atualizado. Lembrei-me do homem agitado que eras, mas curioso. Lembrei-me do homem que tinha tempo e gostava de saber o que tinha de novo para contar das andanças da vida.
Por isto, hoje quero acordar suas lembranças em minha memória e pedir a sua companhia para juntos descrevermos as maravilhas que a vida nos dá todos os dias, seja numa viagem com a que fiz a Natal, em Rio Grande do Norte, seja no corriqueiro do cotidiano por onde se transpira a vida. E, assim eu e você podemos levar outras pessoas a cultivar o relacionamento tão sadio e significativo entre avôs e netos; entre dois seres que se amam desinteressados, porque estão abertos uma para o outro numa troca de experiências de quem já viveu muito e daquele que começa a viver.
Vou supor Vovô que aceites o convite deste teu neto e, darás a alegria da companhia nestas próximas páginas.
Com todo respeito Vovô vou tentar descrever-te para aqueles que não te conheceram pessoalmente e, assim possam ter uma noção de como eras fisicamente e teus traços de personalidade. Sei que não conseguirei descrever-te por inteiro. Contudo, é uma forma de trazer à forma visível aquilo que tenho na memória do meu ser.
Já conheci o Vovô numa certa idade, pois a minha mãe é a filha mais velha. Ele só tinha duas filhas. Vovô tinha o físico forte de um homem do campo, pele meio “jumbo”, pois ele sendo descendente de luso-portugueses misturado com índio (seus ancestrais por parte da bisavó, sua mamãe). Homem que trabalho em diversos serviços, mas sabia fazer muito bem uma farinha de mandioca e, como ficava alegre em poder ter farinha para o ano todo e para os seus familiares. Homem de uma estatura mediana. Tinha passos firmes, mãos seguras, pois sempre lidou com ferramentas e isto lhe dava certa destreza e agilidade. Rosto sereno e ao mesmo tempo alegre quando se deparava com alguém que lhe era caro. Usava óculos e tinha cabelos grisalhos. Às vezes franzia a testa e voz forte quando lhe incomodava ou algo tinha tirado do sério. Gostava de brincar com seus netos e dizem que gostava de fazer arte com seus conhecidos quando novo. Adorava inventar brinquedos para os seus netos (carrinho de corda, flauta de bambu) como também reaproveitava coisas velhas para fazer novas (a maquina de lavar que virou descascador de mandioca, a serra elétrica que também impulsionava a garapeira). Homem criativo se poderia dizer. Tinha uma personalidade forte, pois nas suas conversas deixavam em evidências seus pensamentos, suas opiniões, quer ver se o assunto fosse política da região. Eta! Ai a conversa pegava às vezes certos ares de nervo à pele. Mas era um homem justo e certo nas suas coisas e com seus semelhantes. Não gostava de brincadeira quando assunto era trabalho e quando estava numa roda de jogo de dominó. Mas tinha todo tempo do mundo quando se dedicava a estar com os netos ou fazer algo para sua família, como fabricar com suas próprias mãos escada de madeira para ser usada pelos seus para trocar uma lâmpada ou coisa do gênero. Um homem que gostava muito de assistir TV desde programas de Telejornais, Missa, como também programas humorísticos e novelas. Aos fins de semanas ia sempre à Missa, capela São Pedro que ficava ao lado de sua casa.
Bem esta o Vovô que tenho presente na memória e que compartilho com você e certamente no decorrer dos contos, surgirão outras facetas deste Vovô que vai comigo levar você a partilhar de algumas passagens marcantes que valem a pena serem partilhadas.
Vovô gostou de como te descrevi às pessoas?
Sim, meu neto – respondeu Vovô – mas não esqueça porque amas este velho, né! 

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