Como é grande o desafio nos dias de hoje esta questão – o saber escutar.
Ao olhar a própria anatomia humana se percebe que se têm dois ouvidos e uma boca. No entanto, se tirar um tempo e ficar a observar as pessoas nas suas relações, nos seus encontros se observam que o ser humano tem uma grande necessidade de se comunicar e fala demasiadamente, muitas vezes, sem parar para a outra pessoa, nem lhe dando espaço para devolver o que escuta.
Também o não saber escutar pode atravancar muitos projetos.
Existem pessoas que estão fechadas para escutar o outro quando este quer lhe apresentar alguma idéia, algum projeto, algo que quer partilhar com o seu semelhante. Todavia, este semelhante não está ali para escutar, de saber o que o seu semelhante tem a lhe dizer. E, mesmo que não demonstre imediatamente, mas depois de um tempo aquele que estava ali falando percebe que está sozinho no falar.
Há várias maneiras com certeza de demonstrar o como saber escutar.
Há também uma necessidade de verificar se os sentidos que um dos interlocutores usa se afina com o sentido do outro que interage. Caso contrário, haverá uma dissonância.
Numa casa de família em que há cinco pessoas, por exemplo, um sendo o pai, outro a mãe e os outros três os filhos e estes de idades diferentes e ainda um deles de sexo oposto dos outros. Tudo isto exige uma contínua escola do aprender de como saber escutar.
Quando uma pessoa se dá o direito de parar uns minutos diante do mar e escutar o som do mar em movimento e a quebra das ondas nas encostas das pedras. Quando uma pessoa se dá o direito de parar alguns instantes diante da mata ou de árvores e abrir seus sentidos para escutar as folhas que balançam de acordo com o vento que as movimenta. Escutar os pássaros ali por perto destas árvores que servem de aconchego. Entenderá o que significa “o saber escutar”.
Quando uma pessoa se dá o direito, mesmo dentro da grande cidade, nos vais e vens dos veículos, das pessoas que circulam, dos ruídos dos prédios em construção, dos mais variados sons que ecoam de perto e de longe poderá treinar seus sentidos para escutar o que necessita ser escutado – o ser humano.
Impressionante quando uma mãe de primeira viagem tende a escutar o coração de seu filho recém-nascido. É impressionante quando um jovem que compra seu primeiro carro quer escutar o roncar do motor do seu carro. Impressionante quando alguém ganha um bicho de estimação e quer escutar o som que o mesmo vai fazer quando vê o “dono”.
Será que o ser humano se impressiona com seu próprio som? Será que se impressiona com o som que vem do outro semelhante a si?
Usar de todos os sentidos, de estar todo inteiro para o outro na tentativa de escutá-lo sem reservas, sem pré-conceito, sem neuras... Como fazer?
Deus nos ensina no seu silêncio.
A porta de entrada para esta escola é colar-se a escutar a Deus no seu silêncio.
Para o cristão é se deparar com a escuta da Palavra Divina. Lendo-a e ao mesmo tempo dar tempo para ecoar dentro de si. Para o cristão é se deparar com o mistério da Eucaristia, o Deus que está ali e num encontro do EU e TU se dá a relação da escuta.
A amizade verdadeira não precisa de muitas palavras, basta um estar ali e escutar através da vida presente à sua frente, na sua forma de se manifestar. O eco ressoa e ambos escutam.
O saber escutar é um transpirar da vida que se faz presente no ato presente.

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